A dieta das bactérias

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A guru naturalista Brenda Watson aparece há anos em programas de televisão americanos dando conselhos a quem deseja perder peso. O clínico geral nova-­iorquino Raphael Kellman também se aventurou nos ensinamentos do bem-­estar físico e mental. Tornou-se conhecido do grande público em 2004, após lançar um livro sobre o poder de cura da cabala, os ensinamentos místicos derivados do judaísmo. Nenhuma dessas empreitadas se compara à missão que Brenda e Kellman abraçaram agora: domar bactérias. É um objetivo perseguido pela medicina há séculos, com variados graus de sucesso.

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Em dois livros recém-­lançados nos Estados Unidos, os dois propõem usar os alimentos que comemos para adestrar os micróbios que habitam nosso sistema digestivo – com o objetivo de vencer a balança. O menu para fazer as bactérias trabalhar a favor do emagrecimento é ensinado em A dieta do intestino magro, de Brenda, ainda sem edição brasileira, e em A dieta do microbioma, de Kellman, que deverá chegar ao país em abril de 2016 pelo Grupo Pensamento. Os pratos desta reportagem são um exemplo dos cardápios diá­rios encontrados nos livros.

Fonte: http://epoca.globo.com/vida/vida-util/saude-e-bem-estar/

Dieta do intestino magro (Foto: Codo Meletti/ÉPOCA e produção Beth Freidenson)(Fotos: Codo Meletti/ÉPOCA e produção Beth Freidenson)

Tentar controlar o conjunto de 100 trilhões de bactérias que habitam cada um de nós – chamado cientificamente de microbiota – é uma tarefa hercúlea. Estima-se que, para cada célula humana, existam dez bactérias em nosso corpo. Elas formam uma intrincada rede de interações com o organismo, capaz de influenciar da digestão à produção de hormônios. Na última década, a ciência avançou na montagem desse quebra-cabeça e reuniu evidências de que desequilíbrios entre alguns tipos de bactérias no intestino favorecem o ganho de peso. Traduzir os novos achados numa dieta prática permanece uma incógnita.

“Os cientistas resistem em dar conselhos alimentares com base em seus estudos porque não estão na prática clínica. Vejo o que realmente funciona”, diz Kellman. Aos 52 anos, ele mantém um consultório “holístico” em Manhattan. “Eles não tratam pacientes com diabetes, doenças inflamatórias do intestino e obesidade.”

Dieta do microbioma (Foto: Codo Meletti/ÉPOCA e produção Beth Freidenson)(Fotos: Codo Meletti/ÉPOCA e produção Beth Freidenson)

As dietas criadas por Kellman e Brenda são similares. Baseiam-se em um mesmo princípio: aumentar a ingestão dos alimentos preferidos das bactérias que ajudam no emagrecimento – como as fibras, presentes nos vegetais – e matar de fome as bactérias ruins, que contribuem para a obesidade. Elas, assim como nós, adoram açúcar, inclusive nas formas mais complexas, encontradas nas saborosas batatas e mandiocas. O jeito é se contentar com vegetais magrinhos, como cenoura ou repolho. Aliás, muito repolho.

Uma linha de pesquisa investiga se o desejo por alimentos agradáveis a nosso paladar é determinado pelas bactérias. Elas produziriam substâncias para influenciar nosso apetite e até nosso humor. Quem nunca comeu um doce para alegrar um momento de tristeza? “É uma hipótese um pouco assustadora, mas quimicamente plausível”, diz o microbiologista Luis Caetano Antunes, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Brenda diz que seu método é capaz de acabar com essa influência. “Quando você equilibra seu intestino com os alimentos certos, reduz esses desejos”, escreve em seu livro. Ela testou seu método em dez pacientes, que precisavam perder entre 10 e 20 quilos. Diz que deu certo. “Seis meses depois, ninguém engordou, e alguns continuaram a perder peso.”

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Os resultados parecem animadores para quem quer emagrecer. Para os nutricionistas, são fonte de preocupação. “Essas dietas não têm os carboidratos e as proteínas suficientes para uma alimentação equilibrada”, afirma a nutricionista Fernanda Pisciolaro, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica. Os métodos são baseados na ingestão de vegetais e negligenciam os carboidratos, fontes de energia, e as carnes, ricas em proteínas. Na briga contra o açúcar, restringem demais até os vegetais e as frutas. A consequência é uma possível carência de vitaminas e minerais. Somadas, essas deficiências podem enfraquecer os adeptos das dietas. “Ainda que o intestino fique ótimo, algo que não está comprovado, o resto do corpo sofrerá”, diz Fernanda.

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Os próprios pesquisadores que desenvolvem a ciência da microbiota são céticos quanto à capacidade de as novas dietas equilibrarem as bactérias que vivem no corpo. “Não há dúvida de que a microbiota tem um papel no ganho de peso”, diz o bioquímico americano Justin Sonnenburg, cujo laboratório na Universidade Stanford estuda os fatores que influenciam as bactérias. “A área é muito promissora, mas está apenas em sua infância.” Sonnenburg e seus colegas ainda têm dúvidas básicas sobre como funciona a microbiota e como ela afeta nosso organismo. Primeiro, eles não sabem como cada alimento afeta cada uma das mais de 10 mil espécies que vivem no corpo humano. Manipulá-las com a especificidade sugerida pelas dietas é uma possibilidade remota. Em segundo lugar, os cientistas não têm certeza sobre quais bactérias causam a obesidade e quais ajudam no emagrecimento. É provável que o papel delas seja variável. Algumas que favorecem a obesidade podem ter outra função importante no corpo.

Os habitantes do intestino (Foto: época)

A ideia de que existem bactérias causadoras da obesidade surgiu a partir das pesquisas de uma das referência nessa área, o biólogo americano Jeffrey Gordon, da Universidade Washington. Em 2006, ele descobriu que, em pessoas que perderam peso, houve uma mudança importante na proporção entre dois grandes grupos de bactérias. Nos ex-­gordinhos, diminuíram os micro-organismos pertencentes a um grupo chamado Firmicutes e aumentaram os do grupo Bacteroidetes. À parte os nomes complicados, a conclusão era óbvia: o novo equilíbrio lembrava o encontrado em magros. As Firmicutes ganharam o apelido de bactérias da obesidade, e as Bacteroidetes levaram a pecha de amigas da balança (leia no quadro ao lado).

Algumas hipóteses tentam explicar por que as Firmicutes causam ganho de peso. Elas parecem mais capazes de extrair energia dos alimentos. “Elas têm substâncias para decompor moléculas que não conseguiríamos decompor sozinhos”, diz o médico Joel Faintuch, do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Outra possibilidade é a ação das Firmicutes, com bactérias tóxicas, danificar o revestimento do intestino. Essas microfissuras permitem uma espécie de vazamento do conteúdo do intestino para a corrente sanguínea. O sistema imune é acionado para combater as partículas invasoras e causa uma resposta inflamatória do corpo. “As moléculas produzidas na inflamação atrapalham o processamento do açúcar e da gordura”, diz a nutricionista Tatiana Fiche. Ela estudou a influência da microbiota na obesidade em seu doutorado, na Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais. Essa perturbação nos processos químicos é uma das causas conhecidas da obesidade.

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Os estudos pioneiros de Gordon foram importantes ao dar pistas sobre a influência das Firmicutes no ganho de peso. Mas não permitem que se decrete uma guerra para exterminá-las. Entre as integrantes desse grande grupo, há gêneros de bactérias benéficos para os seres humanos. É o caso dos lactobacilos, que ajudam a proteger o intestino. Em excesso, podem ser sinal de que há alguma coisa errada com a saúde. “Pessoas com câncer normalmente têm uma microbiota dominada por lactobacilos”, diz a bióloga americana Catherine Lozupone, da Universidade do Colorado. Essas incongruên­cias sugerem que determinar as características de uma microbiota saudável é mais complexo que apontar bactérias “boas” ou “ruins”. “Talvez existam vários tipos de microbiota saudável”, diz Catherine.

Para desvendar esses padrões, os cientistas relacionam os hábitos alimentares, as condições de saúde e o perfil bacteriológico – leia-se bactérias encontradas nas fezes – de milhares de voluntários. É esse trabalho duro que os cientistas do American Gut Project, formado por universidades dos Estados Unidos e da Europa, se dispuseram a fazer. “O objetivo final é sermos capazes de dar orientações específicas para cada um”, diz o biólogo neozelandês Rob Knight, da Universidade do Colorado, nos EUA, um dos fundadores do projeto. Eles já analisaram o material enviado por mais de 3.200 pessoas. Cada uma pagou US$ 99 para que suas fezes fossem analisadas usando tecnologia de ponta.

Michael Pollan  (Foto: Divulgação)(Foto: Divulgação)

É o caso do escritor americano Michael Pollan, de 59 anos, especializado em alimentação saudável. Entusiasta dos produtos cultivados em casa, como o queijo fermentado em sua própria cozinha, Pollan foi um dos primeiros a se voluntariar. Os resultados mostraram que ele tinha uma boa diversidade de bactérias – sinal de uma alimentação saudável. Entre elas, chamava a atenção a presença do gênero Prevotella. “Fiquei orgulhoso porque esse grupo é raro em pessoas do Ocidente”, disse  Pollan a ÉPOCA. “Ele é mais comum entre populações que comem muitos grãos integrais e menos alimentos industrializados.” O orgulho logo deu lugar à dúvida quando estudos mostraram que pessoas com HIV também têm maior quantidade de Prevotella. “Isso mostra que ninguém sabe a composição do intestino saudável”, diz Pollan. (Ele não tem HIV.)

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Histórias como a de Pollan sugerem que os autores das dietas das bactérias, Brenda e Kellman, vendem uma solução maior do que a ciência é capaz de entregar, embora muitos dos pesquisadores da microbiota adotem recomendações semelhantes às de Kellman e Brenda. Sonnenburg, da Universidade Stanford, diz que ele e sua família dão preferência a uma alimentação rica em fibras e ingredientes fermentados. Catherine, da Universidade do Colorado, evita alimentos industrializados e antibióticos sem necessidade, que podem afetar a diversidade de bactérias. Nenhum deles espera manipular suas bactérias com essas medidas. Sabem que elas são saudáveis com base em antigos estudos epidemiológicos. Agora, dedicam-se em suas pesquisas a entender exatamente por quê. Talvez ainda seja cedo para adotarmos as dietas de bactérias.

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